TEXTOS CLÁSSICOS
Carta a Fliess - Sobre os Sonhos
Sigmund Freud
Viena, 19 de fevereiro de 1899
9, Berggasse 19
Querido Wilhelm,
(...)
Não apenas os sonhos, mas também os ataques histéricos,
são as realizações de desejos. Isso se aplica aos sintomas
histéricos, mas é provável que se aplique a todos os
produtos da neurose, pois reconheci-o há muito tempo na insanidade
delirante aguda. Realidade e realização de desejo: é
desses opostos que emerge nossa vida mental. Creio saber agora o que determina
a distinção entre os sintomas que abrem caminho para a vida
de vigília e para os sonhos. Para o sonho, basta que ele seja a realização
de desejo do pensamento recalcado, pois os sonhos são mantidos à
distância da realidade.
Mas o sintoma, inserido em meio à
vida, precisa ser mais uma coisa: precisa também ser a realização
de desejo do pensamento recalcador. O sintoma surge quando o pensamento recalcado
e o recalcador se unem na realização de um desejo. O sintoma
é realização de desejo do pensamento recalcador,
por exemplo, sob a forma de uma punição; a autopunição
é o substituto final da autogratificação, que provém
da masturbação. Essa chave abre muitas portas. Você sabe,
por exemplo, porque X. Y. sofre de vômitos histéricos? Porque,
na fantasia, ela está grávida, porque é tão insaciável
que não consegue suportar ser privada de ter um bebê também
de seu último amante na fantasia. Mas também se permite vomitar
porque, desse modo, ficará faminta e emaciada, perderá sua
beleza e não será atraente para mais ninguém. Portanto
o sentido do sintoma é um par contraditório de realizações
de desejo.