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Revista Cultura & Liberdade
Ano 02, num. 02, Abril de 2002



Apresentação:

O Envenenamento Cotidiano e o Projeto Alternativo

O NUPAC – Núcleo de Pesquisa e Ação Cultural – lança o segundo número da Revista Cultura & Liberdade. O Nupac prossegue com seus objetivos fundamentais, tal como colocamos no número anterior, que são os de contribuir para a expansão de uma nova mentalidade e um novo posicionamento diante da sociedade contemporânea, assim como contribuir com o processo de derrocada da hegemonia burguesa na sociedade civil e para isso vai trabalhar no sentido da produção cultural libertária, unindo-a com a ação cultural. A Revista Cultura & Liberdade pretende contribuir com este processo, sendo um dos canais de ação do Nupac.

O mundo contemporâneo necessita de pensar um caminho alternativo para evitar a radicalização da barbárie. Hoje se torna necessário o engajamento de todos que querem evitar um futuro trágico para a humanidade. Nós vivemos num mundo bárbaro e é ele que cria um conjunto de monstruosidades que muitos fazem de conta que não enxergam. A exploração de milhões de seres humanos, a fome (cerca de 800 milhões de pessoas), a miséria, a repressão sexual, o racismo, o sexismo, a destruição ambiental, a destruição psíquica de milhares de indivíduos são apenas alguns exemplos que poderíamos citar. Isto gera algo: um envenenamento crescente, silencioso, cotidiano, que vai constituindo duas possibilidades históricas: o aprofundamento da barbárie ou a instauração de uma sociedade verdadeiramente humana, ou seja, o nazi-fascismo ou a autogestão social. Tal alternativa pode ser vista no nosso cotidiano, nos meios de comunicação etc. Os acontecimentos cotidianos e políticos na sociedade contemporânea nos permitem perceber a manifestação da mentalidade burguesa na sua interpretação, o que nos cega diante deste quadro sombrio. A interpretação burguesa dos acontecimentos cotidianos e extra-cotidianos aparece como um véu escuro que impede a visão do seu verdadeiro caráter.

O atentado terrorista ao Word Trade Center aparece como, segundo se repete incansavelmente, um demarcador de águas: “nada será como antes”, ou seja, depois do referido atentado, o mundo não será o mesmo. Sem dúvida, houve algumas mudanças: o medo tomou conta de Nova Iorque, o Afeganistão está em cinzas, o Antraz é distribuído via correio e outras notícias espetaculares são veiculadas pelos meios de comunicação de massas. No entanto, temos dois problemas aqui: o fio que liga o cotidiano e a política continua cortado (a não ser em raras exceções localizadas) e o espetáculo continua, pois nenhuma ruptura real ocorreu.

O pensamento burguês não tem a capacidade de perceber a historicidade, tal como é interesse da classe dominante, pois ele só pode ver mudanças no capitalismo e não a superação do capitalismo. Qualquer historiador poderá ver isto nas diversas sociedades de classes, já que em nenhuma a classe dominante pensava a superação de sua dominação, a transformação social. O pensamento sistemático (científico, filosófico, etc.), submetido à mentalidade burguesa, é incapaz de pensar o novo, o radicalmente diferente, algo que não seja o mesmo, ou seja, ver algo além da permanência da sociedade existente. Ele pode, no máximo, ver um irmão gêmeo, como o capitalismo de estado (para tal pensamento, o “socialismo real”), como “alternativa”, como “mudança”. 

Esta incapacidade, esterilidade intelectual, conduz não só ao conservadorismo, tecnicismo, formalismo, comodismo, como também reforça o individualismo, o processo que faz do indivíduo uma marionete das forças sociais, aquele que não tem ousadia, não luta, não recusa, apenas busca um “melhor lugar ao sol no interior do capitalismo”, deixando de ver, inclusive em si mesmo, que o melhor lugar que se pode conseguir nesta sociedade é aquele lugar que lhe recusa a felicidade e o seu pleno desenvolvimento. 

Mas tal indivíduo prefere isto, pois ganha algumas migalhas de dinheiro, reconhecimento social, cargos, e outros bens socialmente desejados, que, no entanto, não podem realizar o seu reencontro consigo mesmo. Tal como Marx disse: “quanto mais o homem se fia em Deus, menos tem de si mesmo”. Podemos parafraseá-lo: “quanto mais o homem se fia na aceitação social, no dinheiro, no status, na carreira, no sucesso, menos tem de si mesmo”. O Rei Midas, na mitologia grega, é uma expressão disto: quanto mais se fiou no dinheiro (ouro), menos teve de si mesmo. Ele é um protótipo do indivíduo burguês (não no sentido do indivíduo da classe capitalista, mas do indivíduo que tem uma mentalidade burguesa): desejou o que queriam que ele desejasse, o ouro, e seu desejo – o que é raro em nossa sociedade – se realizou: tudo que ele tocava se transformava em ouro. Mas assim se perde a sensibilidade, não é possível comer, beber, amar, tocar, construir, criar, pois tudo se transforma em ouro (a comida, a mulher, a obra etc.), tudo se torna intocável, senão vira ouro. O desejo se transformou em realidade. O indivíduo é o seu desejo, ou, segundo Sartre, o seu projeto. Nossa sociedade é composta por milhões de Midas e trilhões de indivíduos aspirando a ser Midas e que são infelizes e se destroem por que não o conseguem...[1] Daí a importância da frase de Brecht: “O que importa não é o que você faz de si, mas sim o que faz daquilo que fizeram de você”.

Assim, o intelectual servil, aquele que reproduz a interpretação do mundo de acordo com os interesses da burguesia, é um pobre infeliz que abandonou o senso crítico para ceder aos encantos da televisão, do rádio, do jornal, da carreira e modas acadêmicas, do prestígio intelectual. Torna-se necessário, portanto, realizarmos uma nova interpretação do fenômeno ocorrido nos EUA. O problema da interpretação do que significou o atentado – e suas conseqüências – não tem ressonância no mundo da cultura mercantil (dita “de massas”). Assim, a necessidade de uma cultura libertária é novamente posta em evidência. A hegemonia burguesa domina o cotidiano, a cultura, sem falar nos lugares óbvios, como meios de comunicação, política institucional, etc. Precisamos, pois, reinterpretar o mundo dominado pela interpretação burguesa, dominada por interesses, valores, sentimentos, que são sua expressão. Michel Verret apresentou a tese de que a classe operária realiza uma reinterpretação do mundo existente a partir de sua perspectiva. Portanto, devemos buscar reinterpretar tal fenômeno a partir da perspectiva proletária.

Ao contrário da visão da comunicação mercantil, que tornou tal atentado um “espetáculo” (Debord), e da versão norte-americana, que quis opor o “bem” e o “mal”, o primeiro representado pelos EUA e o segundo pelos terroristas. Utilizando uma variante moderna do pensamento mítico e apelando para o imaginário religioso, juntamente com os valores que lhe acompanham. O objetivo é bem claro: “satanizar” os terroristas e assim justificar os atos genocidas dos EUA. A reação norte-americana que será justificada por esta mitologia é o aumento da repressão social, não somente contra os terroristas em geral, mas contra nações (Afeganistão, Iraque, etc.) e todos que se opõem à hegemonia norte-americana e ao capitalismo, embora sob formas diferenciadas e em doses lentas. 

Mas a burguesia e sua imprensa também usam outros meios para convencer a população mundial além dos valores e da falsa consciência. Utiliza-se dos sentimentos para jogar a população contra os terroristas, isentando-se da responsabilidade sobre o acontecimento. Para isso basta concentrar a atenção no número de pessoas mortas devido ao ataque, visando criar uma comoção coletiva. Assim, a morte e o sofrimento dos familiares das vítimas, são utilizados pelos meios de comunicação para provocar o medo, o ódio e outros sentimentos são manipulados para criar um “consenso anti-terrorista” (e também voltado contra outros, tal como culturas, religiões, posições políticas divergentes, etc.) e se reforçar a hegemonia burguesa e o domínio norte-americano. Desta forma, se justifica o genocídio, e se pode desencadear a guerra. Ora, nada mais adequado aos EUA e ao capitalismo contemporâneo, que vive num período de queda da taxa de lucro médio (queda que o capital vem tentando combater, através da acumulação integral – buscando aumentar a extração de mais-valia absoluta e relativa – que se concretiza através do chamado neoliberalismo, toyotismo, reconversão capitalista, também chamada ideologicamente de “globalização”) já que aquece a indústria bélica e destrói forças produtivas.

Esta reinterpretação ficaria incompleta se não apresentássemos uma análise do fenômeno em si. Em 1o lugar, seria necessário explicar como foi possível tal acontecimento. Como já diziam Marx e Hegel, o concreto é o resultado de suas múltiplas determinações. Assim, poderíamos colocar várias determinações do fenômeno, tais como as deficiências do sistema de segurança norte-americano, a cultura oriental-islâmica, etc. Mas a determinação fundamental reside no ódio gerado no mundo todo e concentrado de forma mais intensa em alguns países e regiões (veja a questão palestina, por exemplo) em relação aos Estados Unidos. Qual o motivo disto? Os EUA se tornou a principal potência imperialista mundial após a 1a guerra mundial e realizou um processo de dominação, colonização cultural, intervenção militar, difusão de miséria e opressão. 

Apesar de todo desenvolvimento tecnológico, milhões de indivíduos vivem na miséria, passam fome, estão submetidos a superexploração. Os trabalhadores na maior parte do mundo vivem em condições indignas. Mesmo aqueles que possuem nível de renda mais elevada estão envolvidos pela miséria psíquica, pela infelicidade, embora estes se, como a burguesia de que Marx falava, “se sentem à vontade em sua alienação”[2]. É isto que possibilita o terrorismo e que foi a determinação fundamental do atentado ao Word Trade Center.

O terrorismo é ineficaz, além de ser uma faca de dois gumes. Se por um lado demonstrou a fragilidade dos EUA e mais uma vez a do modo de produção capitalista (seu sistema financeiro demonstra sua fraqueza sempre que acontece qualquer fato inesperado), bem como abriu os olhos de alguns para a falácia do “fim da história”, por outro, criou justificativa para a repressão e ação genocida norte-americana. A sua ineficácia ficou logo demonstrada pelos acontecimentos subseqüentes. Além disso, o terrorismo comete o equívoco já apontado por Rosa Luxemburgo, de que não se trata de destruir indivíduos e sim relações sociais. De nada adianta matar pessoas, pois o que é preciso é destruir as relações sociais burguesas, o processo de produção capitalista e sua sociabilidade, o estado capitalista e o conjunto das instituições burguesas, juntamente com suas formas de consciência e seus valores.

O terrorismo fundamentado em ideologias religiosas, nacionalistas ou separatistas, também não aponta para uma real alternativa ao “mundo concentracionário” em que vivemos, não aponta para a superação da divisão da sociedade em classes, para o fim da exploração e da alienação. 

Nem hegemonia norte-americana, nem terrorismo. Devemos ir à fonte de tudo isso, o modo de produção capitalista. A partir daí devemos reconhecer que somente com a superação desta sociedade baseada na alienação e sua substituição por uma nova sociedade, fundada na autogestão social, será possível corroer as bases que geram os monstros espalhados por todos os lados, cujos tentáculos possuem inúmeros nomes, tais como terrorismo, imperialismo, guerra, entre inúmeros outros.

Cultura & Liberdade apresenta aqui alguns textos que representam sua concepção, voltada para a crítica da sociedade moderna, e alguns textos de colaboradores que possuem elementos convergentes e divergentes, mas a pluralidade apenas aponta para uma perspectiva diferente da que é praticada na sociedade atual, a do silenciamento, embora isto seja realizado fundamentalmente junto aos grupos oprimidos e classes exploradas. Aqui temos um conjunto de contribuições sobre os mais variados assuntos, destacando desde questões cotidianas até questões mais intelectuais. Neste número se pode ver desde a deformação do pensamento de Marx por H. Arendt, passando por temas atuais (o racismo, o espaço, a cidade e o autoritarismo, o desenvolvimentismo e o conceito de massas populares, “globalização” e nação, o mundo dos valores, a educação e a violência, a opressão das crianças na escola, etc.) até chegar ao nosso tema em destaque: autogestão e utopia. Portanto, ler é preciso.

Comissão Editorial

 

[1] A ansiedade (a doença do século, segundo o psicólogo Lindgren, mas na verdade uma das doenças do capitalismo), é visível e constitutivo da sociedade burguesa. Um produto do capitalismo que é tratado com remédios, terapias, lazeres alienados, etc., sustentando a reprodução ampliada do mercado consumidor (de remédios, jogos, bebidas, turismo, serviços médicos – terapeutas, psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, médicos, etc.) e formando um círculo vicioso que nos revela o beco sem saída e a miséria psíquica em que os indivíduos foram jogados. Segundo a psicanalista K. Horney, a ansiedade produz a busca pelo poder, prestígio e posses, e se esta busca fracassa, ela cresce, o que, no fundo, pode ser expresso simbolicamente como uma bola de neve, cada vez maior (Horney, K. A Personalidade Neurótica do Nosso Tempo. 10a ed., Rio de Janeiro, Forense, 1984).
[2] O psiquiatra Cláudio Lima – que foi esquecido, tal como os poucos intelectuais críticos deste período, devido a colonização cultural em nosso país – , já escrevia na década de 60, que os Estados Unidos exportavam um “estilo de vida” (valores voltados para o consumo e o “conforto”, principalmente, alterando os hábitos alimentares, a habitação, etc.), que é, na verdade, o estilo de vida capitalista do pós-segunda guerra, baseado na mercantilização, burocratização e competição, que chega um pouco atrasado no capitalismo subordinado, demonstrando os problemas psíquicos gerados por isto (Lima, C. Imperialismo e Angústia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1960).


    

 


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