Apresentação:
O Envenenamento
Cotidiano e o Projeto Alternativo
O NUPAC
– Núcleo de Pesquisa e Ação Cultural – lança
o segundo número da Revista Cultura & Liberdade. O Nupac
prossegue com seus objetivos fundamentais, tal como colocamos no número
anterior, que são os de contribuir para a expansão de uma nova
mentalidade e um novo posicionamento diante da sociedade contemporânea,
assim como contribuir com o processo de derrocada da hegemonia burguesa na
sociedade civil e para isso vai trabalhar no sentido da produção
cultural libertária, unindo-a com a ação cultural. A
Revista Cultura & Liberdade pretende contribuir com este processo,
sendo um dos canais de ação do Nupac.
O mundo
contemporâneo necessita de pensar um caminho alternativo para evitar
a radicalização da barbárie. Hoje se torna necessário
o engajamento de todos que querem evitar um futuro trágico para a
humanidade. Nós vivemos num mundo bárbaro e é ele que
cria um conjunto de monstruosidades que muitos fazem de conta que não
enxergam. A exploração de milhões de seres humanos,
a fome (cerca de 800 milhões de pessoas), a miséria, a repressão
sexual, o racismo, o sexismo, a destruição ambiental, a destruição
psíquica de milhares de indivíduos são apenas alguns
exemplos que poderíamos citar. Isto gera algo: um envenenamento crescente,
silencioso, cotidiano, que vai constituindo duas possibilidades históricas:
o aprofundamento da barbárie ou a instauração de uma
sociedade verdadeiramente humana, ou seja, o nazi-fascismo ou a autogestão
social. Tal alternativa pode ser vista no nosso cotidiano, nos meios de comunicação
etc. Os acontecimentos cotidianos e políticos na sociedade contemporânea
nos permitem perceber a manifestação da mentalidade burguesa
na sua interpretação, o que nos cega diante deste quadro sombrio.
A interpretação burguesa dos acontecimentos cotidianos e extra-cotidianos
aparece como um véu escuro que impede a visão do seu verdadeiro
caráter.
O atentado
terrorista ao Word Trade Center aparece como, segundo se repete incansavelmente,
um demarcador de águas: “nada será como antes”, ou seja, depois
do referido atentado, o mundo não será o mesmo. Sem dúvida,
houve algumas mudanças: o medo tomou conta de Nova Iorque, o Afeganistão
está em cinzas, o Antraz é distribuído via correio e
outras notícias espetaculares são veiculadas pelos meios de
comunicação de massas. No entanto, temos dois problemas aqui:
o fio que liga o cotidiano e a política continua cortado (a não
ser em raras exceções localizadas) e o espetáculo continua,
pois nenhuma ruptura real ocorreu.
O pensamento burguês não
tem a capacidade de perceber a historicidade, tal como é interesse
da classe dominante, pois ele só pode ver mudanças no capitalismo
e não a superação do capitalismo. Qualquer historiador
poderá ver isto nas diversas sociedades de classes, já que
em nenhuma a classe dominante pensava a superação de sua dominação,
a transformação social. O pensamento sistemático (científico,
filosófico, etc.), submetido à mentalidade burguesa, é
incapaz de pensar o novo, o radicalmente diferente, algo que não seja
o mesmo, ou seja, ver algo além da permanência da sociedade
existente. Ele pode, no máximo, ver um irmão gêmeo, como
o capitalismo de estado (para tal pensamento, o “socialismo real”), como
“alternativa”, como “mudança”.
Esta incapacidade, esterilidade intelectual,
conduz não só ao conservadorismo, tecnicismo, formalismo, comodismo,
como também reforça o individualismo, o processo que faz do
indivíduo uma marionete das forças sociais, aquele que não
tem ousadia, não luta, não recusa, apenas busca um “melhor
lugar ao sol no interior do capitalismo”, deixando de ver, inclusive em si
mesmo, que o melhor lugar que se pode conseguir nesta sociedade é
aquele lugar que lhe recusa a felicidade e o seu pleno desenvolvimento.
Mas
tal indivíduo prefere isto, pois ganha algumas migalhas de dinheiro,
reconhecimento social, cargos, e outros bens socialmente desejados, que,
no entanto, não podem realizar o seu reencontro consigo mesmo. Tal
como Marx disse: “quanto mais o homem se fia em Deus, menos tem de si mesmo”.
Podemos parafraseá-lo: “quanto mais o homem se fia na aceitação
social, no dinheiro, no status, na carreira, no sucesso, menos tem
de si mesmo”. O Rei Midas, na mitologia grega, é uma expressão
disto: quanto mais se fiou no dinheiro (ouro), menos teve de si mesmo. Ele
é um protótipo do indivíduo burguês (não
no sentido do indivíduo da classe capitalista, mas do indivíduo
que tem uma mentalidade burguesa): desejou o que queriam que ele desejasse,
o ouro, e seu desejo – o que é raro em nossa sociedade – se realizou:
tudo que ele tocava se transformava em ouro. Mas assim se perde a sensibilidade,
não é possível comer, beber, amar, tocar, construir,
criar, pois tudo se transforma em ouro (a comida, a mulher, a obra etc.),
tudo se torna intocável, senão vira ouro. O desejo se transformou
em realidade. O indivíduo é o seu desejo, ou, segundo Sartre,
o seu projeto. Nossa sociedade é composta por milhões de Midas
e trilhões de indivíduos aspirando a ser Midas e que são
infelizes e se destroem por que não o conseguem... Daí a importância
da frase de Brecht: “O que importa não é o que você
faz de si, mas sim o que faz daquilo que fizeram de você”.
Assim, o intelectual servil, aquele que
reproduz a interpretação do mundo de acordo com os interesses
da burguesia, é um pobre infeliz que abandonou o senso crítico
para ceder aos encantos da televisão, do rádio, do jornal, da
carreira e modas acadêmicas, do prestígio intelectual. Torna-se
necessário, portanto, realizarmos uma nova interpretação
do fenômeno ocorrido nos EUA. O problema da interpretação
do que significou o atentado – e suas conseqüências – não
tem ressonância no mundo da cultura mercantil (dita “de massas”). Assim,
a necessidade de uma cultura libertária é novamente posta em
evidência. A hegemonia burguesa domina o cotidiano, a cultura, sem
falar nos lugares óbvios, como meios de comunicação,
política institucional, etc. Precisamos, pois, reinterpretar o mundo
dominado pela interpretação burguesa, dominada por interesses,
valores, sentimentos, que são sua expressão. Michel Verret apresentou
a tese de que a classe operária realiza uma reinterpretação
do mundo existente a partir de sua perspectiva. Portanto, devemos buscar reinterpretar
tal fenômeno a partir da perspectiva proletária.
Ao contrário da visão da
comunicação mercantil, que tornou tal atentado um “espetáculo”
(Debord), e da versão norte-americana, que quis opor o “bem” e o “mal”,
o primeiro representado pelos EUA e o segundo pelos terroristas. Utilizando
uma variante moderna do pensamento mítico e apelando para o imaginário
religioso, juntamente com os valores que lhe acompanham. O objetivo é
bem claro: “satanizar” os terroristas e assim justificar os atos genocidas
dos EUA. A reação norte-americana que será justificada
por esta mitologia é o aumento da repressão social, não
somente contra os terroristas em geral, mas contra nações (Afeganistão,
Iraque, etc.) e todos que se opõem à hegemonia norte-americana
e ao capitalismo, embora sob formas diferenciadas e em doses lentas.
Mas a burguesia e sua imprensa também
usam outros meios para convencer a população mundial além
dos valores e da falsa consciência. Utiliza-se dos sentimentos para
jogar a população contra os terroristas, isentando-se da responsabilidade
sobre o acontecimento. Para isso basta concentrar a atenção
no número de pessoas mortas devido ao ataque, visando criar uma comoção
coletiva. Assim, a morte e o sofrimento dos familiares das vítimas,
são utilizados pelos meios de comunicação para provocar
o medo, o ódio e outros sentimentos são manipulados para criar
um “consenso anti-terrorista” (e também voltado contra outros, tal
como culturas, religiões, posições políticas divergentes,
etc.) e se reforçar a hegemonia burguesa e o domínio norte-americano.
Desta forma, se justifica o genocídio, e se pode desencadear a guerra.
Ora, nada mais adequado aos EUA e ao capitalismo contemporâneo, que
vive num período de queda da taxa de lucro médio (queda que
o capital vem tentando combater, através da acumulação
integral – buscando aumentar a extração de mais-valia absoluta
e relativa – que se concretiza através do chamado neoliberalismo,
toyotismo, reconversão capitalista, também chamada ideologicamente
de “globalização”) já que aquece a indústria
bélica e destrói forças produtivas.
Esta reinterpretação ficaria
incompleta se não apresentássemos uma análise do fenômeno
em si. Em 1o lugar, seria necessário explicar como foi possível
tal acontecimento. Como já diziam Marx e Hegel, o concreto é
o resultado de suas múltiplas determinações. Assim,
poderíamos colocar várias determinações do fenômeno,
tais como as deficiências do sistema de segurança norte-americano,
a cultura oriental-islâmica, etc. Mas a determinação fundamental
reside no ódio gerado no mundo todo e concentrado de forma mais intensa
em alguns países e regiões (veja a questão palestina,
por exemplo) em relação aos Estados Unidos. Qual o motivo disto?
Os EUA se tornou a principal potência imperialista mundial após
a 1a guerra mundial e realizou um processo de dominação,
colonização cultural, intervenção militar, difusão
de miséria e opressão.
Apesar de todo desenvolvimento tecnológico,
milhões de indivíduos vivem na miséria, passam fome,
estão submetidos a superexploração. Os trabalhadores
na maior parte do mundo vivem em condições indignas. Mesmo aqueles
que possuem nível de renda mais elevada estão envolvidos pela
miséria psíquica, pela infelicidade, embora estes se, como
a burguesia de que Marx falava, “se sentem à vontade em sua alienação”. É isto que possibilita
o terrorismo e que foi a determinação fundamental do atentado
ao Word Trade Center.
O terrorismo é ineficaz, além
de ser uma faca de dois gumes. Se por um lado demonstrou a fragilidade dos
EUA e mais uma vez a do modo de produção capitalista (seu sistema
financeiro demonstra sua fraqueza sempre que acontece qualquer fato inesperado),
bem como abriu os olhos de alguns para a falácia do “fim da história”,
por outro, criou justificativa para a repressão e ação
genocida norte-americana. A sua ineficácia ficou logo demonstrada pelos
acontecimentos subseqüentes. Além disso, o terrorismo comete
o equívoco já apontado por Rosa Luxemburgo, de que não
se trata de destruir indivíduos e sim relações sociais.
De nada adianta matar pessoas, pois o que é preciso é destruir
as relações sociais burguesas, o processo de produção
capitalista e sua sociabilidade, o estado capitalista e o conjunto das instituições
burguesas, juntamente com suas formas de consciência e seus valores.
O terrorismo fundamentado em ideologias
religiosas, nacionalistas ou separatistas, também não aponta
para uma real alternativa ao “mundo concentracionário” em que vivemos,
não aponta para a superação da divisão da sociedade
em classes, para o fim da exploração e da alienação.
Nem hegemonia norte-americana, nem terrorismo.
Devemos ir à fonte de tudo isso, o modo de produção capitalista.
A partir daí devemos reconhecer que somente com a superação
desta sociedade baseada na alienação e sua substituição
por uma nova sociedade, fundada na autogestão social, será possível
corroer as bases que geram os monstros espalhados por todos os lados, cujos
tentáculos possuem inúmeros nomes, tais como terrorismo, imperialismo,
guerra, entre inúmeros outros.
Cultura & Liberdade apresenta aqui alguns textos que representam
sua concepção, voltada para a crítica da sociedade moderna,
e alguns textos de colaboradores que possuem elementos convergentes e divergentes,
mas a pluralidade apenas aponta para uma perspectiva diferente da que é
praticada na sociedade atual, a do silenciamento, embora isto seja realizado
fundamentalmente junto aos grupos oprimidos e classes exploradas. Aqui temos
um conjunto de contribuições sobre os mais variados assuntos,
destacando desde questões cotidianas até questões mais
intelectuais. Neste número se pode ver desde a deformação
do pensamento de Marx por H. Arendt, passando por temas atuais (o racismo,
o espaço, a cidade e o autoritarismo, o desenvolvimentismo e o conceito
de massas populares, “globalização” e nação,
o mundo dos valores, a educação e a violência, a opressão
das crianças na escola, etc.) até chegar ao nosso tema em destaque:
autogestão e utopia. Portanto, ler é preciso.
Comissão
Editorial
A ansiedade (a doença do século, segundo
o psicólogo Lindgren, mas na verdade uma das doenças do capitalismo),
é visível e constitutivo da sociedade burguesa. Um produto
do capitalismo que é tratado com remédios, terapias, lazeres
alienados, etc., sustentando a reprodução ampliada do mercado
consumidor (de remédios, jogos, bebidas, turismo, serviços
médicos – terapeutas, psicólogos, psicanalistas, psiquiatras,
médicos, etc.) e formando um círculo vicioso que nos revela
o beco sem saída e a miséria psíquica em que os indivíduos
foram jogados. Segundo a psicanalista K. Horney, a ansiedade produz a busca
pelo poder, prestígio e posses, e se esta busca fracassa, ela cresce,
o que, no fundo, pode ser expresso simbolicamente como uma bola de neve,
cada vez maior (Horney, K.
A Personalidade Neurótica do Nosso Tempo. 10a
ed., Rio de Janeiro, Forense, 1984).
O psiquiatra
Cláudio Lima – que foi esquecido, tal como os poucos intelectuais
críticos deste período, devido a colonização cultural
em nosso país – , já escrevia na década de 60, que os
Estados Unidos exportavam um “estilo de vida” (valores voltados para o consumo
e o “conforto”, principalmente, alterando os hábitos alimentares,
a habitação, etc.), que é, na verdade, o estilo de vida
capitalista do pós-segunda guerra, baseado na mercantilização,
burocratização e competição, que chega um pouco
atrasado no capitalismo subordinado, demonstrando os problemas psíquicos
gerados por isto (Lima, C.
Imperialismo e Angústia. Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1960).